ETNOMICOLOGIA: UMA BREVE INTRODUÇÃO

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Saiba como fungos e cogumelos participam da nossa vida.

fungos cogumelosA Etnomicologia foi definida por Robert Gordon Wasson como um ramo da Etnobotânica que se dedica ao estudo do papel dos cogumelos, no sentido mais lato, no passado da Humanidade (Wasson, 1980). Este contemporâneo de Richard Evans Schultes interessou-se por este tema, apesar de não ser um biólogo, a partir da constatação que diferentes etnias desenvolviam atitudes muito diversas, até opostas entre si, em relação à utilização de macrofungos. Tipificou as atitudes de rejeição e aceitação com os termos “micófobo” e “micófilo”, respectivamente, exemplificando com a sua própria cultura anglo-saxónica e com a russa, da sua mulher Valentina Pavlovna Guercken. O seu trabalho pioneiro foi dedicado sobretudo ao lado “etno”, compilando termos, tradições, mitos, as práticas do quotidiano, de culturas de todo o mundo (Pfister, 1988).

Há três categorias principais de usos dos macrofungos, todos eles com origens muito antigas e relacionados com a ingestão de certas espécies (tabela 1):

Tabela fungos sistemática

Notas à tabela 1

1 Quase todos os grupos de plantas terrestres formam simbioses micorrízicas deste tipo. Géneros Glomus, Gigaspora, Scutellospora, e Acaulospora

2 Associação simbiótica contendo espécies de Saccharomyces e outras leveduras (inclusivamente das Schizosaccharomycetales e Basidiomycetes), e de Bacterium spp.. Tradição originária da Coreia, é uma bebida que resulta da fermentação de chá e açúcar por este agregado de microorganismos, cujas propriedades terapêuticas parecem estar associadas à invulgar presença de ácido glucurónico, um importante desintoxicador, e a regulação da flora intestinal pela combinação de ácido úrico e ácido láctico. Estas propriedades, em conjunto, parecem ter uma forte capacidade de melhoramento do estado fisiológico de quem toma este chá. Depois do interesse dos médicos alemães entre as duas guerras mundiais, foram os soviéticos quem, em termos epidemiológicos, detectaram uma forte correlação entre o consumo tradicional deste chá numa região dos Urais e a ausência de cancro.

3 Ganoderma lucidum (Reishi/Mannentake, Ling-zhi) é o exemplo mais famoso de um fungo “milagroso” pelas suas propriedades medicinais. Reconhecido pela medicina tradicional chinesa desde há pelo menos 4000 anos, desde 1971 que se tornou possível cultivá-lo em larga escala e, entre outras coisas, estudar as inúmeras substâncias farmacologicamente ativas nele contidas, designadamente terpenóides anti-alérgicos, ácidos ganodéricos e outros estabilizadores da tensão arterial ou anti-tumorais e anti- inflamatórios, etc.. Outros exemplos: Lentinus edodes (Shiitake), Polyporus umbellatus, Poria cocos, Polystictinum sp., Grifola frondosa(Maitake), Hericiumerinaceus, Omphalia lapidescens, formando um conjunto que toca as mais diversas acções terapêuticas, inclusivamente coadjuvantes das terapias anti-cancro.

Veja mais no artigo: cogumelos medicinais contra o câncer.

4 Exemplos mais conhecidos entre os Agaricales comestíveis:

  • Agaricus bisporus (o “champignon”, largamente cultivado), Macro lepiota spp. (conhecido com o tortulho no Centro e Norte de Portugal), Coprinus comatus, Amanita caesarea (laranja), A. ponderosa(silarca), Tricholom a equestr e (míscaros); entre os Boletales, avultado Boletus edulis (conhecido no Alentejo como tortulho) e seus congéneres da Sec t. Boletus.
  • Principais responsáveis por intoxicações: Amanita phalloides e seus aparentados da Sec t. Phalloideae, como A. verna, e também Galerina margina ta, Lepiotasp. (todas as espécies da Sect. Ovisporae, como L. helveola ),Cortinarius orellanus, espécies de Inocybe e Clitocybe responsáve is pelo síndrome muscarínico, Amanita pantherina e aparentados (síndrome panterínico), Paxillus involutus, etc.. As confusões, acidentes e acima de tudo a inexperiência dos apanhadores e consumidores são a principal fonte de problemas (por exemplo , alguns membros dos géneros Boletus e Agaricus são no mínimo indigestos).

5 Todas as espécies utilizadas para ritos xamânicos são, para a Micologia e para a Medicina, tóxicos, provocando alucinações e mesmo distúrbios fisiológicos (Moreno et al., 1986, Courtecuisse et Duhem, 1994). Do ponto de vista de muitos etnomicologistas, são espécies enteogénicas (Wasson, 1980, McKenna, 1992, Arthur, 2000), isto é, contendo substâncias que, quando ingeridas, veiculam uma experiência “divina”, donde resultam nas culturas que os experimentam um sentido de respeito e mesmo de veneração que é compartilhado pelos estudiosos desta área. As espécies mais notórias são o Amanita muscaria e várias espécies dos géneros Psilocybe e Stropharia. Sabe-se que a psilocibina é um mimetizador da acção do neurotransmissor serotonina. Exemplificando bem a dificuldade em traçar limites entre veneno e enteogénio, o ergotismo é uma forma de envenenamento provocada por uma substância em tudo semelhante à psilocibina.

USO MEDICINAL

Desenvolvido principalmente no Extremo-Oriente e associado sobretudo a Polyporales e espécies afins — embora se incluam vários táxones doutros grupos — assume um enorme relevo nas práticas tradicionais de medicina para tratamento de doenças crónicas, combate ao envelhecimento, regularização de funções orgânicas, etc.. O esclarecimento dalgumas propriedades terapêuticas reconhecidas em certas espécies, por métodos científicos, tem resultado até num alargamento do espectro das suas potencialidades.

USO GASTRONÔMICO

O mais generalizado em todos os continentes, compreende não só a procura e consumo de espécies comestíveis que complementam a dieta de muitos povos (e também os rendimentos de muitos apanhadores) mas ainda o seu reverso, que é o do envenenamento devido a confusões com espécies tóxicas ou misturas acidentais (cf. Moreno et al., 1992, para uma revisão detalhada, e também Courtecuisse et Duhem, 1994). Poderá encontrar-se aqui a principal razão para a dicotomia entre micofilia e micofobia.

USO MÁGICO

Relaciona-se com a presença de substâncias que actuam ao nível do cérebro, alterando a percepção sensorial, tanto em relação a estímulos externos como em relação ao próprio corpo, e cujo consumo é tradicionalmente associado a ritos xamânicos em muitas culturas da Ásia, da África e da América, de que abundantes símbolos, ou referências históricas e religiosas, dão testemunho.

Para além disso, podem contar-se usos tão diversos como a tinturaria, atavios de indumentária, e a manutenção de mechas acesas para preparação do fogo, mantida na Europa até ao século XIX.

No caso dos microfungos, cuja importância para as culturas humanas se pode ver através de devastadores patogénios na agricultura, dermatófitos na clínica, levedantes na indústria alimentar, micorrizas na agricultura e silvicultura, etc. (Oliveira, 2001), não correspondem à definição (a nosso ver, correcta) dada por Wasson para a Etnomicologia, visto que só no domínio científico, e com técnicas laboratoriais (microscopia, microbiologia), são reconhecíveis como aparentados com os macrofungos.

Adoptando uma classificação taxonómica tradicional mas bastante actualizada, a tabela 1 dispõe o que se designa como Reino Fungi segundo os principais táxones (excluindo as divisões Myxomycota e Oomycota por não serem filogeneticamente do mesmo grupo que os restantes, cf. Berbee et Taylor 1993), evidenciando-se casos particulares que merecem algum relevo no contexto da Etnomicologia com anotações no final.

Confira também: Valor nutricional de cogumelos comestíveis.

BIBLIOGRAFIA
  • Arthur, J. (2000) Mushrooms and mankind. The Book Tree, Escondido, CA. Azevedo, N. (1996 ) Cogumelos silvestres, Clássica Editora.
  • Berbee, M., J. W. Taylor, (1993) Dating the divergences of the major lineages of the Eumycota. Can. J. Bot. 71, 1114.
  • Courtecu isse, R., B. Duhem, (1994 ) Mushrooms & Toadstools of Britain & Europe, Harper Collins Publishers.
  • McK enna, T. (1992) O pão dos deuses, edição em P ortuguês po r Via Óp tima, Porto, 1998.
  • Moreno, G., J. L. G. M anjon, A. Zugaza, (1986 ) La guia de incafo de los hongos de la Peninsula Iberica, tomo I, Incafo, S. A., Madrid.
  • Oliveira, P. (2001) Cogumelos e o Ambiente. Diário do Sul, página «Naturalmente», 3 de Maio de 2001.
  • Pfister, D. F. (1988) R . Gordon Wasson – 1898-19 86. Mycologia, 80, 11.Semião-Santos, S. (1999) Reishi, shiitake e maitake: os cogumelos mágicos.
  • Segredos da medicina alternativa, nº 105. Diário do Sul, 20 de Outubro de 1999
  • Semião-Santos, S. (1998) Os produtos naturais e os fármacos utilizados na medicina convencional, 1ª e 2ª partes. Segredos d a medicina alternativa, nº 18. Diário do Sul, 6 de Janeiro de 1998
  • Wasson, R. G. (1980) The Wondrous Mushroom: Mycolatry in Mesoamerica, McGraw-Hill, New York.

Fontes Digitais: Arquivo pdf e blog Pensologosou.pt

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